Um amigo me chamou pra ajudá-lo a na sua dor. Guardei a
minha no bolso e fui...
Amizade!
Desprendimento, solidariedade,
amor...o que define a amizade?
Há algo de divino no encontro
entre amigos. Por muitas vezes penso na amizade como sendo o primeiro passo
para o amor. Ela não está pressuposta nem mesmo nas relações consangüíneas;
pode ou não estar presente nelas. E quando a amizade se faz presente nas
relações familiares, faz toda a diferença. Podemos pensar que ela, a amizade
acontece num caminhar mágico de entrega, confiança, cumplicidade, construída
entre pessoas. Porém ela pressupõe um desafio. O desafio constante de cada ser
se deparar com aquilo que o motiva verdadeiramente na entrega para o outro.
O que nos leva a deixar o
mundo narcísico e embrenhar no encontro com o outro ser?
Precisamos estar muito atentos
a isso na proposta de observar se a
atitude de entrega é pelo outro ou é por nós. Você pode estar perguntando como
assim, e eu te respondo que há dois motivos
ou dois sentimentos que norteiam
este comportamento. Um deles, e o
melhor podemos dizer, é quando a entrega
não nos leva a desencontrar de nós de mesmos. A outra maneira é quando fazemos
isso exatamente para desencontrar de nossas dores. Uma fuga de nossa
realidade...uma ausência de nós mesmos naquilo que é nosso. Por falta de
vontade ou por falta de coragem, não importa bem o motivo, muitas
pessoas se embrenham na vida dos outros, não exatamente por amor e
desprendimento, mas sim para justificar o porque não dão conta das suas próprias
vidas. Isso é um amargo engano cometido por muitas pessoas. Adiar aquilo que
nos desafia na nossa realização é boicotar a própria evolução. Porém encontramos também muitas pessoas que
conseguem agir no primeiro modelo, no
modelo do amor. E é maravilhoso despertar ou ver desabrochar em nós esta
capacidade de estar com o outro; num encontro inteiro de almas, objetivando o
equilíbrio de ambos. Não há sentimento no mundo que não precise ser
compartilhado. Seja a dor ou o amor, seja a alegria ou a tristeza, a satisfação
ou a decepção, buscamos sempre dividi-los com quem está perto. E fazemos isso
de maneira consciente ou não. É ação e reação. Todos os sentimentos são
impotentes se não podemos ou não temos com quem dividi-los. Ser capaz de estar
com alguém nos momentos necessários sem que isso nos faça perder de nós mesmos
exige amadurecimento, compromisso, fidelidade e auto- estima. Saber que o momento dedicado ao encontro do
outro é somente um momento, e que o retorno às nossas vidas é fundamental para nossa
existência. Permanecer na vida do outro, é um caminho sutil (ou as vezes nem
tanto ) de abandonar a própria dor. Viver a dor do outro é sempre mais fácil,
porém nada existencial. Saber deslocar-se do narcisismo natural para levar o
amor a alguém, sem esquecer de que por amor nos distanciamos de nossas mazelas,
mas por amor devemos voltar a elas até que estejam resolvidas. O sujeito
narcísico não dá conta de se estender ao outro. Sua relação com o mundo é
egocêntrica e limitada. Sua dor é sempre maior e sua compreensão é exacerbada.
Sabe tudo pelo simples fato de achar que já viveu sempre coisas piores. Sua
ajuda caminha no ato de banalizar ou para não ser tão dura, minimizar a dor do
outro em relatos vaidosos de sua própria existência. Não é a nada disso que me refiro na frase inicial. Quero terminar
este texto ressaltando o valor de amizades verdadeiras; o brilho, a força e a luz que eles trazem na
nossa vida e que nós levamos para a dele quando nos dispomos ao grande encontro
de almas. Quero terminar apostando que a
humanidade caminha para este sentimento verdadeiro, e que cada vez mais vamos
ver amigos se abraçando numa única proposta de se manterem de pé, em equilíbrio
e em aconchego. Acredito no fundinho do meu coração que amigos são irmãos que Deus
nos permite escolher para fazer de nossa caminhada algo mais alegre, e que dos
irmãos também devemos fazer amigos. Aos amigos que caminham ao meu lado, o meu
mais puro amor e que possamos andar menos distraídos pela vida, para que
possamos reconhecer o valor das pessoas quando cruzarem nossos caminhos.
Abraços .
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